
Tem gente que diz que escrever é uma terapia, que a escrita faz bem e etc… Particularmente acho isso de uma hipocrisia tamanha. É que, pra mim, terapia é tudo aquilo que traz uma solução e ponto final. E quem escreve com a alma, sabe que escrever custa muito caro. As palavras não são bailarininhas de plástico, que a gente coloca numa caixinha musical, dá corda e as vê dançando. As palavras são perigosas, elas nos fazem reféns.
Escrever é não permitir que algo morra, deixar algo no passado. Escrever é dar vida às coisas perecidas dentro de nós. Sabe criança, quando brinca com espíritos e depois fica com medo? É assim quando eu escrevo. Colocar em palavras todos os meus pensamentos, sentimentos e sensações que eu pretendia evitar. Enfio o dedo na ferida e a faço sangrar. Me vejo encarando demônios que eu deveria evitar. E por mais que depois eu desligue o computador, isso têm vida própria. Quando eu fecho a tela, as letras ficam dançando aqui, secretamente. E o meu estômago se revira, e a minha alma tem espasmos.
Percebam que a minha escrita é bem pobrezinha. Leio gente por aí que escreve bonito e difícil, mas eu não sei fazer isso. Escrevo do jeito que penso. Do jeito que eu sinto. Minha melancolia e simples e confortável, assim eu, são as minhas palavras, e também os meus pensamentos. Então vim aqui expressar do sofrimento que a escrita causa. Agora minha alma já agoniza. Minha alegria ainda está aqui, mas eu a fiz sangrar porque glória nenhuma inspira artista nenhum, por mais talentoso que seja. Porque só assim eu posso escrever. Assim é a escrita, deliciosa e torturante. Mas nada terapêutico…