
Meu silêncio traz sempre ecos de estilhaços pisados com a ponta dos pés. o que quebrou não se cala e o barulho é mais cáustico quando está tudo calado. Sempre em mim, vívido, no leve movimento do pestanejar. Ruge a cada novo rasgão nesse pedaço agudo, nos vidros de um olhar partido em pequenos pedaços que já não encaixam, que se atropelam e vão vazando no volante. É uma queixa, sim. é a dúvida de mim, do que pertenço. Do meu nada. Não chego. Não basto. São noites vazias e custam-me as noites vazias. Custam-me que não tenham de ser vazias e que ainda assim o sejam. Porque não percebo esse vácuo imposto onde se estende a mão e há apenas o vago morno de algo que já não. Algo, pronome indefinido tão pessoal, como a memória de um sabor particular, talvez de infância, definitivamente de inocência. Que conheço mas que não tenho. Há uma parte de mim assim. da qual não consigo desembaraçar-me. a que não depende de mim. Essa é a parte vazia, a parte passiva, a expectante, a incomoda, a risível. Que se engana todos os dias. é um nó que nada abraça. E que por isso se sufoca sozinho.
ridícula, murmuro-me. cala baixinho a fraqueza. fecha-te. fecha os olhos para que não se veja. fecha a porta e arranca.
A minha solidão é simples. É substantivo feminino. O estado de quem está só.